Protagonista de clipe de MC Kevinho, fala sobre ser mulher com deficiência - Sarah Santos

quinta-feira, 28 de março de 2019

Protagonista de clipe de MC Kevinho, fala sobre ser mulher com deficiência



A ruiva ganhou destaque ao participar do clipe ‘Ô Bebê’, da produtora de vídeos de funk ‘Kondzilla’ e levou a representatividade de pessoas com deficiência para o audiovisual


 Maria Paula Vieira tem apenas 25 anos e impactou o mercado do funk brasileiro em 3 minutos, com o clipe ‘Ô Bebê’ de Mc Kevinho com Mc Kekel. A grandiosa ‘Kondzilla’, com suas produções de vídeos com mulheres de corpos e traços faciais dentro do padrão de musa do funk, abriu espaço para a temática da inclusão de pessoas com deficiência e o resultado não poderia ser mais positivo: 317 milhões de visualizações e uma música que ganhou até o coração de alguns ouvintes que não se identificam com o estilo musical.

 Sem dúvidas, a participação de Maria e outras pessoas com deficiência foi um excelente investimento para o cantor e sua produtora de videoclipes, mostrando mais uma vez o impacto positivo que as abordagens inclusivas trazem para uma marca. Ainda, por trás da menina sorridente e de madeixas ruivas que rouba o coração de Mc Kevinho no videoclipe, existe uma mulher que se posiciona com firmeza e coerência a respeito das vivências da sua classe. 

 Formada em jornalismo e atuando como fotógrafa, ela explica que a doença que lhe deixou em uma cadeira de rodas não possui um diagnóstico fechado. “É  inconclusivo, sabe-se que é uma doença genética, extremamente rara, afeta os pés e as mãos e  surgiu quando eu tinha 3 anos de idade. Desde então, eu tenho dores e a locomoção foi diminuindo cada vez mais, até eu ter que andar de cadeira de rodas”. Hoje, além de representar as pessoas com deficiência nas suas pautas, ela não se esquece dos indivíduos que possuem doenças raras e torce pelos avanços da medicina que tragam benefícios para essa população.

 Para ela, a maior dificuldade na infância foi a socialização com outras crianças. “Primeiro porque a minha doença já era rara, eu tinha muitas dores, então praticamente estudei em casa, eu ia muito pouco, só fazia as provas. Então, a minha socialização foi muito complicada por conta disso. Já tinha o preconceito, tinha a deficiência, tinham as minhas dores e isso tudo prejudicava o meu contato com a sociedade. Eu era uma pessoa extremamente tímida, não entendia o que eu passava. Não era explicado, não era passado, então eu não entendia nada daquilo”.
  
 Desde os seus primeiros contatos com a mídia, Maria não se via representada. Nas extensas programações da televisão e navegações da internet, não encontrava-se nenhuma moça com deficiência, assim como ela.  “A adolescência foi crucial para mim, foi um marco, já é um para qualquer pessoa por ser uma fase de mudanças, mas para uma pessoa com deficiência, é quando descobre o seu próprio corpo. Eu não conseguia entender onde eu fazia parte, não conseguia me encaixar, não me sentia bonita, não me sentia adequada aos padrões que me eram impostos”.


Imagem: Kondzilla

 Foi na adolescência em que ela teve de assumir de vez a cadeira de rodas. Tentou adaptar-se com órteses e próteses, mas a locomoção era cada vez mais difícil. No meio de todos os seus questionamentos e dúvidas comuns entre meninas da sua idade, havia a condição física atrelada. Mas, no meio de uma estrada difícil e cheia de barreiras, ela encontrou uma faísca de luz. “O gatilho para eu me reconhecer foi a novela ‘viver à vida’ com a Alinne Moraes. Foi quando eu comecei a me achar uma pessoa bonita, uma pessoa atraente e que poderia conquistar as coisas. Quando vi uma atriz que já admirava tanto, que era apaixonada, como eu, essa representatividade que tanto falamos que é importante aconteceu. Eu vi ali e percebi que eu poderia ser uma mulher linda, atraente, casar, ter uma profissão, uma carreira linda, que eu poderia ser o que quiser”.

 A jornalista assume que o caminho para encontrar o seu espaço no mundo não foi conquistado sozinho, mas com a ajuda de algumas pessoas cruciais. Dentre elas, cita a sua mãe. “Minha mãe sempre esteve à frente para eu conseguir as coisas, estudar, ela sempre confiou que eu poderia ser o que eu quisesse”. A união entre as duas foi a receita certeira para o sucesso de Maria e a satisfação de sua mãe.

 O seu empoderamento também foi conquistado por meio dos estudos. Na faculdade de jornalismo, Maria conheceu a fotografia e descobriu uma nova vocação que, além de uma atividade exercida com amor, seria a sua fonte de renda e independência financeira. 

 “O jornalismo faz parte de mim, mas está bem secundário, o meu foco maior é a fotografia. Eu fotografo mulheres, faço ensaios sensuais e ensaios de família, acho que essa é a minha maior vocação e descobri ela graças ao jornalismo. Sempre gostei muito de ler, de escrever, de telejornalismo, de ler reportagens. Entrei no jornalismo por isso, eu gostei muito, mas o que mais me marcou foram as aulas de fotojornalismo, a fotografia para mim é um marco pessoal, porque percebi como ela é capaz de mudar a autoestima e empoderar as pessoas. Então, foquei nisso depois que saí da faculdade”. 

 A participação no clipe ‘Ô Bebê’ foi uma oportunidade inesperada para a garota que até então, fazia apenas alguns trabalhos para amigos como modelo fotográfica. Como militante, Maria buscou saber se aquela produção realmente representaria as pessoas com deficiência e ficou satisfeita com o resultado. “Acho que eles tiveram um ótimo roteiro para trabalhar de forma que não teve nem um toque capacitista. Não é porque eu participei, mas vejo como um golaço na inclusão”.

Imagem: Kondzilla


O convite chegou por meio de uma agência e ela se candidatou antes de saber que seria para Kondzilla e que faria casal com Mc Kevinho na produção, teve a aprovação dos empresários e eles também tiveram a dela, que tem o vídeo como o queridinho da sua carreira. “Fizemos o clipe e para mim, é um xodó, um sonho”.

Maria é uma boa referência para outras pessoas com deficiência que possuem resistência em cair de peito no mundo e enfrentar o convívio social, desde o mercado de trabalho às boates, bares e a badalada vida noturna de São Paulo. Mas, além disso, também faz discursos incisivos e coerentes sobre os seus desejos para o futuro de pessoas que, assim como ela, sentiram a negligência do Estado e da sociedade em algum momento. “O meu maior sonho em relação à igualdade é que realmente tenha inclusão. Às vezes, acontece de alguns lugares serem mais acessíveis e inclusivos, as diferenças são mais aceitas, mas a inclusão real não existe”. 

De acordo com Maria, a pessoa com deficiência segue à margem da sociedade e é excluída inclusive por outras vertentes de movimentos sociais. “Quero que, um dia, haja direitos, hajaj informação, que as pessoas consigam nos enxergar, nos ver e nos incluir de todas as formas. Parece uma utopia, mas eu espero que se torne realidade”. A fotógrafa também fala que almeja melhorias para pessoas com doenças raras. “Espero que melhorem os tratamentos para doenças e deficiências, que esses indivíduos tenham uma reabilitação como outras de muito poder aquisitivo, têm”.

Hoje, em seu Instagram e na mídia, Maria é a representação que gostaria de ter tido quando era apenas uma menina: empoderada, coerente e empática com as vivências dos outros. Para outras garotas com e sem deficiência, ela pede que acreditem em si mesmas. “Sei que não é fácil, que a sociedade ainda impõe muitos padrões. Nós temos que desconstruir isso em nós mesmas, perceber a nossa beleza, isso é um processo. Mas em passos de formiga, conquistando dia após dia, olhando no espelho e se orgulhando, não desistindo e percebendo o nosso potencial na carreira, nas profissões, na nossa beleza, sensualidade e feminilidade”. 

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