Thalitta Mendes estudou por quatro anos para até passar na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - Sarah Santos

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Thalitta Mendes estudou por quatro anos para até passar na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul


A jovem estudou por quatro anos para até passar na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Ao ser perguntada sobre o que queria ser quando crescer, já aos 8 anos, Thalitta era clara: queria ser médica. "Percebi que medicina daria a possibilidade de ajudar as pessoas com a profissão que escolhi e esse sonho virou rotina", explica. De pouca estatura e voz certeira, ela manteve a chama acesa. Filha de doméstica, como ela explica com orgulho, começou a se preparar para o vestibular no segundo ano do ensino médio, pois imaginava o tamanho da concorrência para o curso almejado.

A estudante explica que o conhecimento das aulas do ensino médio em uma escola pública não foram suficientes para embasar a realização da prova, então, não alcançou a nota. "Eu encarei mesmo a realidade de que sabia pouco quando saí do ensino médio". Como não tinha dinheiro para pagar a mensalidade de um curso preparatório, Thalitta trabalhava no Kumon (escola de matemática), enquanto estudava na mesma instituição para saldar as aulas, "eu trabalhava e estudava, fazia os exercícios para a minha dificuldade em matemática diminuir, porque tinha uma base fraca".

A oportunidade de fazer um cursinho pré vestibular surgiu com o Instituto Luther King, entidade educacional que oferece cursos para jovens de baixa renda ou situação e vulnerabilidade social. Na instituição, o aluno pode fazer até dois anos de aulas para se preparar para o vestibular. "Eu estudava de manhã em casa, trabalhava a tarde e estudava a noite no Luther King, essa era a minha rotina", ela explica. Os dois anos se passaram e Thalitta não podia mais continuar no curso pré vestibular gratuito, também, não tinha dinheiro para custear um particular. Então, fez uma prova de bolsa e conseguiu 30% de desconto, com o resto do valor sendo dividido por sua sogra e um ex professor que acreditava em seu sonho.

"Eu continuei trabalhando e o salário que eu tinha era para alimentação, passe de ônibus e essas outras dívidas. Prestei vestibular naquele ano, passei na UFMS e na UFPR". A aprovação em duas universidades federais no curso de graduação mais concorrido foi duplamente comemorada, mas dividida entre algumas preocupações que lhe acompanhariam pelos próximos anos. A estudante escolheu continuar em Mato Grosso do Sul e os desafios mudaram. Após passar no vestibular e conquistar a tão sonhada vaga, a preocupação seria sobre como se manter na universidade. "Quando se entra na faculdade pública, você acha que tudo seria mais fácil, porque querendo ou não, uma faculdade na minha cidade é 13 mil e na federal você não tem uma mensalidade para pagar, mas ainda assim, tem diversos outros custos".

O curso em período integral impede Thalitta de trabalhar e dificulta a sua estadia na faculdade, dessa forma, ela precisa buscar outras alternativas. Tentou o Programa Bolsa Permanência (PBP), uma ação do governo federal de concessão de auxílio financeiro a estudantes matriculados em instituições federais de ensino superior em situação de vulnerabilidade socioeconômica, mas não foi selecionada. Sua mãe se comprometeu em ajudá-la com alguns gastos e para abater outros, a então estudante de medicina vendia cookies durante os intervalos das aulas. "No segundo semestre, a rotina não permitia mais que eu fizesse cookies pra vender. Nisso, vi que não são só as provas que te desmotivam, mas a rotina acadêmica também. O estresse de ir e voltar de ônibus, pensar em dinheiro, tirar boas notas em todas as provas".

Mesmo assim, Thalitta não abriu mão da sua graduação e fez rifa para arrecadar fundos. "O dinheiro arrecadado me ajudará a comprar os materiais de uso médico necessários como estetoscópio, esfigmomanômetro e outros". Conforme surjam disciplinas práticas na grade curricular do curso, os custos com materiais, livros e produtos aumentam e a estudante luta diariamente com dedicação no cotidiano das aulas e busca por alternativas de ter capital financeiro para se manter em uma universidade infelizmente elitista e custosa, mesmo que pública.

Hoje, no segundo ano de graduação e com mais maturidade, avalia que a escola pública não sana todas as necessidades em conhecimento que o estudante tem para passar em um vestibular, mesmo o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). "A gente percebe isso de uma maneira dura, chorando, sofrendo". Thalitta pondera que a universidade pública e os cursos mais concorridos só são acessíveis para quem sempre teve o domínio de todo o poder e os traços de cor, orientação sexual e condição financeira definem o destino de um estudante, mesmo que coloque todos os esforços físicos e mentais necessários em seu objetivo. "Para quem tem deficiência, é negro ou pobre, a universidade deveria ser um caminho para conseguir um futuro tranquilo para a pessoa e a sua família, mas se torna um obstáculo".

Thalitta conseguiu realizar o sonho de passar em um curso de medicina em universidade federal, mas sente por outras Thalittas, Marias ou Antonias que talvez nunca consigam alcançar a profissão dos sonhos por falta de informação, incentivo ou recursos financeiros.  Enquanto o ensino superior brasileiro continuar sendo exclusivo para determinados grupos de pessoas, jovens talentos e sonhos serão perdidos na frustração da injustiça social.


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