É hora de tirar a mão do joelho e colocar na consciência

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 De músicas que estimulam o empoderamento à 'surubinha de leve', há um longo caminho onde mulheres vão de dona do próprio corpo à vítimas de violência.

 Mesmo tido como um movimento contemporâneo, o funk nasceu na década de 70, quando deram início aos trabalhos do grupo Furacão 2000 e o ritmo era uma mistura dos gêneros Black, Soul e Shaft. A música que animava os bailes da periferia do Rio de Janeiro invadiu o resto da cidade e o movimento tomou conta do país. Logo, os mcs que eram conhecidos apenas em sua região, tornaram-se astros nacionais.

 Ao passar pelo funk melody, ostentação e proibidão, o ritmo firmou as suas raízes e deu oportunidade para artistas em situação de pobreza, além de valorizar a expressão da periferia. O trecho "é som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado" nunca fez tanto sentido. As músicas ocupavam espaço nas festas de pessoas com maior poder aquisitivo, cultura que permanece até hoje.

  As festas universitárias, comemorações extravagantes de 15 anos, formaturas de cursos de graduação e até mesmo confraternizações de corporações não fazem mais tanto sentido sem as batidas do funk. Porém, nota-se que a realidade das favelas só é conveniente para a burguesia quando vêm acompanhada de letras melódicas que animem suas noites de farras. Essas mesmas pessoas não se importam ou refletem sobre o cotidiano da novinha retratada nas canções.

 Se de um lado a massa conservadora condena o funk e se deixa levar pelo clichê do "no meu tempo não era assim", a outra parcela abraça o gênero musical e justifica sua preferência com o apoio a liberdade sexual. E de fato, ser dono do seu próprio corpo e explorar a sua sexualidade é uma dádiva, um direito simples que antes era radicalmente negado pelo Estado e a religião, e agora, há sinais de uma possível negociação.

 Mas esta liberdade sexual nem sempre beneficia as mulheres. Ou, na maioria das vezes, só é vantajosa para homens e repetem um discurso pouco parecido com o conservadorismo, onde a mulher não possui muitas funções e o principal, não possui espaço ou protagonismo. As iniciativas dentro do universo do funk que colocam mulheres em posição de destaque ou letras que exaltam sua independência são uma novidade bem vinda, assim como em outros gêneros musicais. Porém, dançar músicas machistas é um ato político. 

 A desculpa de que o funk é um gênero musical exclusivo para ser ouvido em festas já não funciona muito bem, no instante em que as letras refletem a realidade de uma comunidade e o comportamento das pessoas que o ouvem. Neste caso, o ritmo têm sido disseminado cada vez mais e conquistado ouvintes até mesmo fora do seu país de origem. Se por um lado o funk deve ser reafirmado como o direito da população de se expressar, por outro, deve chamar esta mesma população para refletir sobre o que canta por aí.

 Recentemente, o cantor "Mc Diguinho" lançou a música Surubinha de Leve, que por algumas horas foi a mais ouvida do país no Spotify. Poderia ser apenas mais uma letra provocativa e com conotação erótica, mas uma parte da letra a colocou em um palco de discussões nas redes sociais.

"Taca a bebida, depois taca a pica e abandona na rua", a música dizia, em uma clara apologia ao estupro. Em um país onde, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, há um caso de abuso sexual a cada 11 minutos. Também, apenas de 30% a 35% dos episódios são denunciados às autoridades. Torna-se difícil saber se a música é fruto de uma cultura que permite crimes sexuais ou se a letra incentiva este comportamento nos ouvintes.

 A existência de um gênero musical que represente a periferia é importante, deve ser incentivada e vista com menos preconceitos, principalmente ao vir de uma minoria social. Mas, se este meio de expressão acusa um comportamento que agride, machuca, corrompe emocionalmente, fisicamente e psicologicamente a vida de outra pessoa, ele deve ser repensado. O funk é uma delícia e deve continuar existindo. Diverte, anima as noites na cidade e algumas letras são manifestações de resistência. Mas a cultura não pode enaltecer uma ação que tira a vida e a esperança de mulheres todos os dias.

 E se for preciso denunciar para os serviços de streaming, desligar o som, parar de dançar no meio de uma festa ou dialogar com aquele seu amigo que não vê nada demais em letras abusivas, que assim seja feito.

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