O medo de ficar sozinha

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  Segue a regra social de que a mulher acompanhada é melhor vista. Não é à toa que nos espaços públicos, garotas sozinhas ou com amigas são as últimas a serem respeitadas por assediadores e em confraternizações familiares, as primeiras a serem interrogadas. As populares canções de amor e produções cinematográficas onde um final feliz só é possível à dois ganham o gosto e as lágrimas emocionadas de todas nós. Mas quando o amor não cabe mais, esse discurso ainda é válido?

 Dia desses, uma amiga vivia um relacionamento de abusos e incertezas, sem alternativas para o famigerado final feliz. Ao ser questionada sobre um possível fim para aquele enredo, ela justificou que não se imaginaria solteira. "Deus me livre ficar sozinha". Mas na intenção de ter alguém perto sem saber como manter aquela relação saudável, ela se afundava em uma busca solitária. Esse mesmo comportamento se repete em amizades, parentescos e amores sustentados pelo medo de estar apenas consigo mesmo.

 A solidão da mulher é assustadora. E o maior motivo pertinente para isso é a violência de gênero. Nós não viajamos sozinhas, não voltamos para casa sozinhas, não dançamos sozinhas. Um cotidiano machista pede companhia, de preferência, de um homem. Estar só traz inseguranças e atribulações, como uma agulha na bolha do conforto. À longo prazo, reflete em nosso comportamento que passa a necessitar de uma metade para ser inteiro.

 O amor próprio é um desafio. É trabalhado devagar, tijolo por tijolo, na intenção de construir um alicerce forte que não possa ser derrubado por ondas e influências externas. Só assim, então, o novo pode chegar e se acomodar. Ao receber pessoas em nossas vidas, recolhemos o que elas oferecem e contribuímos para o que são, é a lei natural dos encontros. Mas é preciso conhecer a si mesma para saber o que é essencial e do que abrir mão.

 Ao saber que não devemos abrir mão de uma parte nossa, o amor próprio tem que fazer morada. Ele previne ciladas e nos fortalece em meio às tempestades. A tão falada resiliência vêm do autoconhecimento, quando nos debruçamos sobre nós mesmas e gostamos do mergulho. Assim, também podemos oferecer mais e fazer do outro feliz. Amar é construir e trocar tijolos.

 Relacionar-se é belo, mas deve ser saudável. A convivência deve servir para nos fazer indivíduos melhores e compartilhar instantes. E às vezes, será necessário estar só para então, encontrar-se bem acompanhada. Mulheres vão se relacionar melhor quando perderem o medo da solidão.

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