O Instagram e os padrões de beleza

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 O Instagram é uma rede social de compartilhamento de imagens e vídeos do cotidiano, onde se é possível seguir outros perfis e ser seguido por eles. O Brasil possui a segunda maior base de usuários do mundo, com 35 milhões de contas em 2016. Além de ser querido pelos brasileiros e ter se tornado uma ferramenta de vendas e fidelização de clientes, tem o mérito de ter revolucionado nossa relação com pessoas influenciadoras.

 Ao potencializar o relacionamento de um fã ou apreciador de um trabalho com seu criador, a rede social tem muito a ganhar, mas muda nossa forma de enxergar os indivíduos que ocupam os holofotes daquele meio. O laço de admiração passa a ser interativo e torna-se mas convidativo. Porém, quanto mais estica-se esse laço, mais propício ele está a arrebentar.

 Recentemente, uma influenciadora digital teve sua credibilidade questionada ao esconder que havia feito uma cirurgia plástica, enquanto oferecia produtos emagrecedores e conselhos sobre um estilo de vida mais saudável. A movimentação em suas páginas durou semanas, de pessoas que acreditavam em seu trabalho e sentiram-se traídas com a "verdade maquiada".

 Porém, há alguns anos, diversas personalidades do meio artístico realizavam procedimentos estéticos em busca de alcançar os modelos de beleza enaltecidos na época e o fato de não comentarem sobre era encarado com mais naturalidade. Foi estabelecido um contrato social de compartilhamento de informações cruciais às mais ínfimas do cotidiano da pessoa exposta, com atualizações constantes para sustentar este sistema.

 Enquanto os influenciadores alimentam o sistema com conteúdo dos detalhes mais íntimos de sua vida com a justificativa de estabelecer boas relações com o seu público, os espectadores do outro lado do monitor consumem incansavelmente o que lhes é oferecido, com a promessa de inspiração, informação e entretenimento.

 A era da Capricho e Malhação, que ainda reluta em se dar por vencida, foi marcada por padrões estéticos mais severos e com poucas variações. As redes sociais, por sua vez, permitem um espectro maior de perfis e isso contribui para uma maior representatividade. Marcas menores podem financiar a divulgação dos seus produtos por um valor aquisitivo mais acessível, e isso traz uma realidade jamais imaginada na televisão ou nas revistas teens que antes serviam como gurus para as adolescentes.

 No entanto, a confiança e o afeto do público, que torna-se cliente, aumenta junto da exposição do seu ídolo. Os filtros e artimanhas obtidas na Internet servem para melhorar a imagem destes indivíduos e transformá-las em verdadeiros produtos, com a aparência e diversos aspectos da vida perfeitos. São personagens que não brigam com seus parceiros, jamais acordam desarrumados ou tem um dia onde sua aparência está menos que aceitável para as pessoas que o acompanham.

 Através de comentários e compartilhamentos, o público se torna muito mais exigente com o que enxerga em seu monitor, ao mesmo tempo que pega para si os discursos apresentados nessas redes sociais com muito mais facilidade. Hoje, existe rotina da manhã, da tarde e da noite relatada em canais do Youtube. Câmeras apontadas 24 horas por dia e cobrança redobrada por mais conteúdo em menos espaço de tempo.

 O ciclo se repete em uma máquina que não pára. Com isso, a população que tem acesso à esse meio corre o risco de se inspirar em imagens irreais de pessoas imperfeitas, que agarram-se a métodos de modificação das imagens e vídeo para parecerem mais bonitas, mais bem sucedidas e mais felizes. É uma busca injusta por um padrão que nunca vai ser alcançado.

 Um consumo mais consciente é fundamental para romper esse ciclo. Enxergar esses perfis com olhar crítico e ver o ser humano medíocre, como todos nós, que há por trás dos milhares de seguidores, pode proporcionar uma perspectiva mais real do que é compartilhado conosco todos os dias. Acima de influenciadores que possuem um relacionamento intenso e constante com seu público, os ídolos da juventude atual são vendedores legítimos, afim de captar clientes, fidelizar parcerias e conquistar um público que preserve sua fama.

 Inspirar-se em objetivos maquiados é estupidez. No fim, o feed do outro é sempre mais colorido.

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