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Vamos falar sobre igualdade de gênero em Campo Grande?

Reprodução do Facebook

 Campo Grande - Mato Grosso do Sul é o local do tereré, dos coloridos ipês, do calor insistente que se mistura com a umidade do ar. Com muito potencial para promover o bem estar de seus habitantes, mas ser mulher aqui é difícil. Há hipóteses de que isso acontece pela cultura patriarcal predominante no estado, pela famosa antipatia do campo-grandense com quem chega na cidade, pelas influências das culturas vizinhas. São milhares de justificativas, e alguma delas deve explicar o porquê, segundo a Assembleia Legislativa, o estado encontra-se em segundo lugar em número de denúncias de violência contra a mulheres e a capital, por sua vez, é campeã nacional nesse quesito.

 Decidi trabalhar com políticas públicas para a mulher aos 17 anos, quando entrei na faculdade de Jornalismo, por pura paixão pela causa. Na diretoria de uma associação de mulheres com deficiência e depois, em um estágio na Subsecretaria de Políticas Públicas para a Mulher. O primeiro impacto foi notar a diferença entre a militância da Internet e o enfrentamento a violência de maneira prática. Lidamos com verbas, pessoas, egos inflados e marcas causadas pelo machismo. E a cada notícia de que uma mulher foi morta na minha cidade, é como se alguma amiga fosse embora.

 A imprensa nacional e as redes sociais estiveram ocupadas nos últimos dias pela comoção e revolta quanto ao caso de Mayara Amaral. Uma talentosa violinista que, independente da tipificação do crime, morreu por motivação do machismo. Seu corpo foi carbonizado e seus bens roubados por três homens. A mídia local, ao noticiar o fato, repetiu os mesmos estereótipos que mulheres campo-grandenses estão cansadas de lidar, como se a vítima tivesse procurado aquilo. E ela nem está aqui para se defender.

 Dentre as frequentes histórias de mulheres vítimas da cultura machista que assola Campo Grande, há um que merece ser lembrado, mas infelizmente, não teve a mesma repercussão: Juliana da Silva Fernandes. Mulher negra e marginalizada, morava na favela da Cidade dos Anjos. Mãe de seis filhos, morta pelo ex marido na frente deles. O autor do crime mantinha um relacionamento extraconjugal durante dez anos e matou sua ex-esposa pela mera possibilidade dela estar com outro homem.

 Outra residente de Campo Grande, pobre e negra, que não morreu pelo feminicídio, mas viveu uma vida refém do medo foi Dona Cira. Mineira,  trabalhadora doméstica, veio para Mato Grosso do Sul com a família e se casou aos 22 anos com seu agressor e foi mantida em cárcere por 20 anos. A senhora não vivia acorrentada, mas a violência patrimonial e psicológica lhe manteve ali, mesmo machucada. Após o poder público descobrir a história, prender o agressor e libertar Dona Cira, ela descobriu um tumor maligno em estado avançado e faleceu três meses depois. 

Foto de Henrique Kawaminami para o Midiamax.
 Os três crimes acima citados são apenas a ponta do iceberg que se perde dentre as agressões que não são noticiadas e as que sequer são denunciadas. Há uma doença na cultura que mata as mulheres campo-grandenses e ainda não temos o diagnóstico, mas precisamos lutar contra urgentemente. Em busca de uma perspectiva melhor, devemos tentar mudar a ótica e enxergar em Campo Grande uma cidade com mulheres fortes e potencial de mudar essa realidade.  Em contraste ao cenário violento, somos uma cidade de mulheres valentes. Aqui, Raimunda Luzia de Brito se destacou e a senhora Maria Constança Barros Machado também escreveu história, deixando de herança uma escola que hoje é patrimônio histórico. Aqui é a cidade de Dona Eva, Conceição dos Bugres e a sede da primeira Casa da Mulher Brasileira no país, sendo um modelo piloto para as outras. 

  Somos uma capital pioneira em tratar das questões de mulheres com deficiência. Com projetos de divulgação a Lei Maria da Penha em Libras e uma unidade hospitalar modelo em atendimento ginecológico acessível. Também, somos pioneiros em uma campanha mensal de disseminação dessa legislação, onde são realizadas palestras, rodas de conversa, oficinas e demais atividades em todo o estado, o Agosto Lilás. A herança negra e indígena nos torna mais fortes, e por mais que essa força possa ser ofuscada pelo machismo predominante, há muita gente trabalhando para que transformar essa realidade. Nossa cidade é uma das únicas a possuir um centro especializado em atendimento psicológico para mulheres que sofreram violência e entes queridos de vítimas do feminicídio. 

 As mídias tem certa resistência a divulgar essas ações. Talvez, na intenção de reproduzir o mesmo pensamento de preconceito com mulheres que têm perseguido, agredido e matado a população feminina de Campo Grande. Enquanto isso, meninas crescem cada vez mais empoderadas, cobrando do poder público e da imprensa ações de enfrentamento à desigualdade de gênero. O presente da Cidade Morena apresenta um cenário doloroso, mas o futuro dessas garotas que gritam, lutam, ensinam e transformam a capital em um lugar melhor para ser mulher.

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Sarah Santos
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1 comentários:

  1. Se não houvesse tanta segregação no Brasil... Não há motivo para tratar gênero com diferença é tudo uma afronta a Constituição, à Vida. Gostei Sarinha!

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