Adolescência interrompida: o abuso sexual do meu amigo de infância

13:19


 O jornalismo têm seus desafios. As pessoas tomam ciência do poder da profissão e buscam nos jornalistas a oportunidade para relatar as mazelas de suas vidas e ver na exposição midiática a possibilidade de se sentirem melhores diante das injustiças sociais. A imprensa indigna, traz alívios e consciência para a população, e a responsabilidade de criar essa ponte é grande. Essa é uma das funções mais bonitas que aprendemos na faculdade, mas nunca imaginei que um dia seria a escolhida para tal.

 Minha infância foi vivida nas praias do estado do Paraná. Com ondas, conchinhas e muito mato. A vida simples de lá parecia muito mais fácil de digerir que o caos da vida adulta na cidade grande, as memórias são as melhores. Em Paranaguá, cidade mãe do Paraná, conheci um menino de coração dourado. Seu sorriso é uma das lembranças mais claras daquela época; nós brincávamos na escola, nas ruas e na igreja. Éramos melhores amigos, quase irmãos. Esse menino era educado, de jeitinho simples e corpo magricelo. Nas rodas de conversa das mães, o mais cotado para futuro genro. Deixava uma pitada de seu brilho em cada canto, nos registros da amizade bonita que tivemos.

 Aos doze, voltei para Campo Grande - Mato Grosso do Sul, onde nasci. A saudade nos consumiu nos anos conseguintes, mas graças às tecnologias que encurtam as distâncias, sempre soubemos um do outro. Eu me tornei estudante de jornalismo e ele também encontrou felicidade em sua profissão. Contanto, as redes sociais só nos mostram a parte bonita da vida do outro, e meu mundo parou por um minuto quando ele me confidenciou seu segredo mais obscuro. Pediu para que eu escrevesse sobre isso e permitiu que seu nome fosse exposto, mas em respeito à ele e sua família, preferi não o fazer. 

 Meu amigo foi abusado sexualmente. "Por muito tempo achei que fosse culpa minha, por eu ser muito inocente", ele conta. A dor esteve arranhando o seu peito, engasgando dentro de si e tirando sua voz, por algum período. O acontecimento se deu quando ele tinha apenas 15 anos, a vontade de se libertar através das palavras e afirmar que não é culpado, lhe trouxe até aqui.

"Guardei isso durante seis meses porque tinha medo da reação das pessoas, por ser homem, achei que podiam zombar de mim. Quando contei para uma pessoa porque não aguentava carregar esse peso sozinho, ela simplesmente contou para minha família. Meus pais descobriram, minha mãe se preocupou muito comigo e meu pai me reagiu mal, falou que a culpa era minha, que eu que me ofereci, mas se arrependeu após ter dito. Eu sou muito inocente com as coisas e com as pessoas, não vejo maldade nelas", relatou em uma conversa.

 A sociedade é cruel com mulheres que sofrem abuso sexual, donas da maioria dos casos. Jogam a culpa na pessoa agredida e não se responsabilizam pelas marcas físicas e emocionais causadas por essa tragédia. Com rapazes, não é muito diferente. A cultura patriarcal cobra também os homens, que devem assumir posição de domínio e nunca fraquejar, brochar, chorar ou se mostrar vulnerável.  Tamanha agressão não corrompe somente seu desempenho emocional e sexual, mas desencadeia uma reação de preconceitos e ódio gratuito, que oprimem mais ainda a vítima, quando essa é do gênero masculino. "Quando meu pai soube ele me perguntou porquê não revidei, respondi que tinha medo de morrer'', ele afirma.

  "Eu fazia um curso preparatório, e sempre ia embora de carro com o pessoal do curso. Nesse dia, esse ''amigo'' deixou todo mundo primeiro e eu fiquei por último, disse que precisava passar em casa antes, e falei que tudo bem.", conta sobre o dia em que o incidente aconteceu. "Ele entrou na casa e eu fiquei no carro, então, pediu ajuda pra mudar a cama de cômodo. E eu fui. Quando entrei, ele trancou a porta, me bateu, me amarrou e por fim deixou uma marca muito grande em mim...", confessa. A conversa foi feita via redes sociais, por não haver possibilidade de vê-lo pessoalmente. Mas em minha mente, é difícil imaginar seu sorriso genuíno se desfazendo e a risada gostosa sendo calada. Cair na real é duro, mas meu amigo foi abusado sexualmente.

 É como se todas as nossas palmas, brincadeiras no pátio da escola, corridas à longa distância e bilhetinhos compartilhados durante as aulas entediantes fossem picotados pela cortante realidade que interrompeu a alegria em sua vida. O menininho doce, com quem compartilhei aprendizados, sorvetes e abraços teve sua personalidade agredida e se tornou estatística. Um estudo feito nos Estados Unidos revela que um em cada seis homens sofreu algum tipo de abuso antes dos 16 anos no país, e em território nacional, não é muito diferente: o Disque Denúncia registrou em 2014 uma média diária de 13 denúncias de abusos de meninos. Essa realidade é ainda mais assustadora, pois de acordo com dados de 2011 do Sinan, no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, destes casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia.

 "Depois daquele dia, eu comecei a andar com faca, cabo de vassoura pra tentar me defender, entrei em uma paranoia muito grande", divide seu pesar. As consequências de um abuso sexual são árduas e comprometem o desempenho do indivíduo em diversas áreas de sua vida. O Manual de Prevenção do Abuso sexual, publicado pela ONG "Save the Children" aponta que à curto prazo o incidente pode acarretar medo generalizado, agressividade, culpa e vergonha, isolamento, baixa-autoestima e rejeição do próprio corpo. À longo prazo, depressão e ansiedade. 

 O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu código penal, criminaliza abusos sexuais com menores de 18 anos. No artigo 213, afirma: "constranger à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça, inclui pena de reclusão, de 6 à 10 anos." Também, o artigo 5º traz: "nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais."

  A superação após o trauma é um desafio. A ajuda de amigos, familiares e a proteção do Estado é fundamental para garantir o desenvolvimento da pessoa. Também, é necessário desconstruir a premissa de que a vítima é culpada e isso não acontece com rapazes, os juízos de valor em cima do estupro agridem mais ainda as vítimas. Precisamos conversar sobre isso e não ignorar ou reprimir episódios que acontecem com indivíduos que conhecemos. Caso aconteça, o Disk 100 promove auxílio para as vítimas, além da assistência pessoal e familiar necessária.

 "Depois desse ocorrido tive um relacionamento, mas infelizmente não foi bem sucedido, por conta do medo. Quando entro em ônibus, ou lugares com muitas pessoas, meu coração aperta, ainda estou naquela fase de adaptação. Mas estou caminhando novamente, saindo sozinho. Tinha ido embora para São Paulo, mas ainda tinha medo e por isso voltei para Paranaguá! Mas estou tendo coragem... De conhecer pessoas novas, lugares novos. Eu não tinha autoestima, me sentia um lixo, mas hoje estou me dando valor, me colocando pra cima", afirma, sobre seu processo de superação.

 Meu amigo foi abusado sexualmente. E esse fato jamais será apagado. Confiou em mim para escrever sobre isso e infelizmente, essa é a única coisa que posso fazer por ele. Mas é possível superar esse acontecimento, e fazer dessa superação útil para outras pessoas que passaram pelo mesmo. Como aspirante a jornalista, cumpro o papel de divulgar a verdade e prevenir futuras tragédias através da informação. Mas como amiga, espero que esse texto tenha o libertado.

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6 comentários

  1. Sarah, que texto sensível e forte tu escreveste! Senti a dor do teu amigo e a vontade imensa de abraçá-lo e dizer que tudo vai ficar bem. O mundo precisa de mais jornalistas como tu <3
    Um beijo!

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    1. Muito obrigada, Nadine! Espero ter colaborado.

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  2. Olá! Nossa, que texto! Fiquei arrasada, imaginado a dor do teu amigo carrega com ele, a família não ter apoiado. E diversos meninos e meninas passam por isso...É triste.

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    1. Obrigada, Suzana! Espero que através do diálogo possamos superar essas dores...

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  3. Tratou da melhor forma. Parabéns, Sarinha. Ótimo texto, bela amizade. Nós só podemos fazer o nosso possível e você o fez.

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    1. Obrigada, meu bem! Espero ter lhe ajudado!

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