Talvez, você seja um "porquê"

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 O seriado “Thirteen Reasons Why” do Netflix trouxe suicídio e bullying como pauta para discussão nas redes sociais. E como todo viral da Internet, surgiram textos dissertando sobre a vida de Hannah, ou o fim dela. Basicamente, a história é sobre as últimas semanas do cotidiano de uma garota do ensino médio que encontrava-se depressiva, e cita os motivos que a levaram ao suicídio. O fato da protagonista tirar a própria vida não pode ser considerado Spoiler, pois a série já parte dessa premissa. 

 Os episódios giram em torno de Clay Jensen, seu colega e suposto pretendente amoroso, descobrindo cada um dos motivos e reagindo a eles. “Os treze porquês”, como também chama a série, são conflitos que ela mesma teve com outros alunos de sua escola e alguns personagens avulsos. A história inclui situações de violência, difamação, machismo e exposição da imagem; e o comportamento agressivo dos alunos resultou não só no sofrimento de Hannah, mas também produziu feridas psicológicas em seus colegas.

 A maioria das manifestações sobre o seriado foram reflexões sobre suicídio e como evitar que isso aconteça com alguém. Os relatos de bullying da personagem incentivou o depoimento de parte do público que já passou por essa situação, pois infelizmente, muitos se identificaram com a Hannah. O júri da Internet foi impiedoso com os supostos vilões do seriado, o que é ótimo, já que incitou discussão e o exercício de repensar esses assuntos, dos quais antes as pessoas fugiam.


 Mas, como em todo viral da Internet, faltou bom senso. Ou pelo menos, um pouco mais de reflexão. Em um cenário onde todos se consideravam como Hannah Baker, surge o questionamento: "quem são os porquês?". Um dos aspectos mais interessantes da série é o fato de que os agressores também são vítimas em algum momento, o que não justifica suas ações, mas ajuda a entender o motivo pelo qual fizeram aquelas coisas, em um ciclo de violência que levou uma garota a tirar a própria vida. Mas, em nossa vida pessoal, será que também não participamos desse ciclo?

 O mal da sociedade politicamente correta é armar-se de informação a ponto de se considerar irredutível sobre tudo o que acha certo. É se achar bom o bastante para não cometer erros e jamais estar na posição de um agressor. As pessoas politicamente corretas da Internet vivem a fantasias e nunca terem praticado uma violência e serem cem por cento íntegras. Pensar que saber sobre transtornos psicológicos a deixa imune de causar um em alguém. Pobre ilusão.

 Talvez, você nunca tenha espalhado uma foto constrangedora ou contado uma fofoca que pode estragar a vida de uma pessoa. Mas com certeza já caçoou de um colega pelas costas, fez piada de mal gosto ou pré julgou sem conhecer o outro intimamente, o que também pode resultar em prejuízos no seu interior. A mediocridade mora na covardia de praticar pequenas maldades e negar tal crime. Não podemos nos esquecer que assistir uma situação de violência, por menor que seja, e não fazer nada, lhe torna quase tão culpado quanto o agressor.




 Ignorar uma vítima, não prestar socorro ou fingir que não viu alguém sofrendo violência também te tornam um "porquê". Pequenas atitudes impensadas, inspiradas no nosso individualismo podem destruir a saúde mental de outra pessoa, e ninguém está livre de cometer esse erro. Portanto, acima de tudo, é preciso ter humildade para se reconhecer humano e estar disposto a reparar os seus erros. Humanos machucam uns aos outros inevitavelmente, na mesma proporção que podem salvar uns aos outros com amor e empatia.

 Então, assistam a série de novo, porque refletiram errado sobre "os 13 porquês". Ela acabou sendo vista como um alerta sobre bullying, mas é um recado sutil para todos nós melhorarmos como seres humanos e abraçarmos nossas diferenças. Olhar lá para dentro do nosso ego e examinarmos a nós mesmos, na intenção de saber se em algum momento fomos o "porquê" da vida de uma pessoa. E saber que na maioria das vezes, ferir alguém é passível de conserto e pode ser visto como uma oportunidade de remendar a si mesmo também.

 Lembrem-se que havia apenas uma Hanna Baker, enquanto outros treze personagens imperfeitos, perdidos e solitários acabaram por tomar decisões que causaram dor a outra pessoa na máquina destrutiva que é o ensino médio. Precisamos quebrar esse ciclo de sermos machucados por alguém e ferir o próximo da fila como uma reação à esse machucado. Romper com a violência é um ato corajoso, e já tem gente demais reproduzindo ódio.

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