A geração de mulheres que trabalham demais

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 No fim da década de 60, saímos de casa com nossas maletas e invadimos o mercado de trabalho. Mas não se iluda: essa não foi uma conquista exclusiva do movimento feminista na época. A evolução industrial e as duas primeiras guerras mundiais obrigaram o patriarcado a reconhecer nossa capacidade de estar nas indústrias. Porém, o capitalismo não falha em sua crueldade: desde o princípio dessa inserção, mulheres receberiam salários menores que seus parceiros, mesmo que exercendo as mesmas funções. Também, engana-se quem pensa que só a partir desse momento na história mulheres começaram a exercer força bruta para produção. Muito antes disso, as senhoras das classes populares exerciam atividades produtivas dentro de casa, principalmente em áreas rurais, executando um papel fundamental, mas que não era reconhecido como trabalho por não ser formalmente remunerado. 

 A primeira lei brasileira que regia sobre a situação da mulher no mercado de trabalho surgiu apenas em 1930 e nas décadas seguintes, a inserção foi maior e isso acarretou na diminuição da desigualdade salarial. Porém, mulheres continuaram ocupando cargos de cuidadoras, mas fora do lar, em empregos como enfermeiras, atendentes ou educadoras. Essa conquista trouxe melhorias para a economia, maior qualidade nas prestações de serviços e educação das comunidades. O número de famílias dominadas por mulheres e nível de escolaridade feminino aumentou, com ocupação de espaços também no ensino superior.

 Mas ao analisar o mercado de trabalho atual, há muitas considerações a serem feitas. Somos netas, ou filhas, das mulheres que enfrentaram o difícil início dessa saga e somos beneficiadas com os frutos de sua luta. Atualmente, educação é um direito fundamental e gratuito para qualquer cidadão, e espera-se que após o ensino regular, todos sejam encaminhados para o mercado de trabalho. Mas as injustiças começam aí. Além das desigualdades étnicas e de classe, a divisão de salários por gênero ainda é desigual. Segundo o IBGE, em 2015 (ano mais recente da pesquisa), homens recebiam em média R$490,00 a mais que mulheres. A ocupação de cargos de chefia também é desigual; em 2015, 6,2% dos homens ocupavam esses cargos, entre o total de trabalhadores com 25 anos ou mais. Entre as mulheres, esse número cai para 4,7%. 

 Essa realidade é muito mais visível na prática do convívio empresarial, e os episódios de assédio moral e violência de gênero dentro de universidades e empresas não deixa mentir. Confiam em mulheres para posições de gerir pessoas, mas não projetos. E isso remete ao arcaico pensamento do gênero feminino como cuidador do lar, enquanto o masculino ganha o pão de cada dia. Acontece que mulheres estiveram por tanto tempo atrás das cortinas, apoiando os homens de sua casa enquanto eles levavam o crédito do sustento da família, e hoje podem competir pelos holofotes. Querem provar sua competência, mas o mercado ainda é injusto e isso traz consequências.

 A violência de gênero atual é muito mais simbólica que os números e estatísticas podem representar. Os cargos de secretárias e assessoras em sua maioria é ocupado pelo público feminino e os cargos de liderança, por homens, mostrando mais uma vez a metáfora dos bastidores e do palco. São frequentes os casos de chefes abusivos e parceiros de trabalho preguiçosos, enquanto trabalhadoras aturam sua incompetência sem levar crédito por isso. As mulheres tem sim mais espaço no mercado de trabalho, mas além de encarar a dupla jornada dos serviços domésticos e empresariais, precisam disponibilizar um duplo esforço para obter o mérito recebido pelos homens.

 E quando conseguem cargos de chefia, a insubordinação masculina e estigmatização dessas mulheres é frequente. Pense comigo: a maioria das mulheres que vemos na ficção ou na vida real e ocupam cargos de coordenação, levam consigo o estereótipo de "mulher macho" ou "mandona", tendo que dispor de imenso esforço para demandar liderança, enquanto homens podem ser chefes e continuar sendo divertidos, bacanas e festivos, ainda assim, passando confiança para seus funcionários e clientes. Nos filmes, a maioria dos papéis de diretores, presidentes e grandes empresários são de homens, e quando há uma mulher, não é bem vista pelo público. Como Miranda Priestly, interpretada por Meryl Streep, de "O Diabo Veste Prada". Há quem diga que isso só é visto nos cinemas, mas a ex presidenta Dilma Rousseff é o perfeito exemplo. Em sua gestão, foi alvo de reportagens sensacionalistas, que diziam respeito à sua condição de gênero.


 Ainda temos que ouvir homens falando: "Quer igualdade? Vai carpir um lote!", "Quero ver essas feministas em uma construção...", esquecendo-se do árduo serviço de domésticas, que ainda é uma profissão de ocupação feminina, ou das próprias mulheres de sua família, que enfrentaram dupla jornada para lhe sustentar. Temos direito à licença-maternidade e aposentadoria, por exemplo, mas isso é o mínimo. Os direitos conquistados não são favores do Estado ou cavalheirismo, mas uma obrigação para que haja qualidade no trabalho e na vida dessas mulheres. Para muitas, a desigualdade não diminuiu. Apenas passou a acontecer em casa e no trabalho também.

 Por essas e outras que temos uma geração de mulheres que trabalha demais. Leva tarefas para casa, ocupa suas noites e fins de semana pensando no trabalho e abaixa a cabeça para colegas de trabalho, clientes e funcionários, a fim de provar que é boa no que faz. Por isso que essas mulheres se esforçam tanto para alcançar posições de liderança e quando chegam lá, são tidas como "loucas" e desconfiam de seu talento. A realidade de que o trabalho feminino não é visto de forma tão digna quanto o masculino é difícil de se ler e admitir, mas só encarando-a, que o mercado de trabalho vai se tornar justo. Não se iludam, ainda estamos muito longe da igualdade.

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