Sorria, você está sendo abusivo!

18:23


 Há alguns anos a questão dos relacionamentos abusivos foi discutida pela primeira vez. Ao falar sobre violência contra a mulher, movimentos de enfrentamento reconheceram que, sob influência da sociedade patriarcal, as agressões não aconteciam somente de forma física. Antes de ter marcas no corpo pela brutalidade de um homem, uma série de injúrias podem estar acontecendo, sem que se tenha notícia delas. A violência também pode ser manifestada de maneira moral, patrimonial, sexual... E psicológica, a mais sutil e tirana arma para fazer o outro sofrer. 

 Desde então, e ainda bem, o discurso sobre a violência contra a mulher ganhou proporções muito maiores. O ciúmes passou a ser visto como uma forma de posse e comportamentos agressivos passaram a identificar perfis de homens abusadores. Também, começou-se a discutir o que é um relacionamento saudável e até a monogamia foi colocada em cheque, como uma maneira pejorativa de prender pessoas a relacionamentos. Não muito distante, relacionamentos poligâmicos também foram problematizados, como um possível caminho para abusar psicologicamente de mulheres, tendo a liberdade como justificativa. A Youtuber Jout Jout teve sua ascensão com o vídeo "Não Tira o Batom Vermelho", no qual explica didaticamente o que é um relacionamento abusivo e como ele acontece. 

 Com esse tema em evidência, a sentença: "amiga, seu relacionamento é abusivo", passou a ser utilizada com muito mais frequência, sendo uma válvula para proteger mulheres de futuras agressões físicas e diferenciar o sentimento de amor, de manipulação. Entretanto, os criadores desse conceito erraram feito ao limitar a definição de relacionamento abusivo a casais que vivem relacionamentos tóxicos. E deram na mão de indivíduos que também podem possíveis agressores, o poder de julgar as relações alheias.

 Defendo a tese de que em casos de violência, deve-se sim meter a colher em "briga de marido e mulher". Mas antes de tudo, é fundamental possuir autocrítica das próprias atitudes e entender a concepção do que é ser abusivo com o outro. Pois além de relacionamentos amorosos, a violência psicológica pode estar presente em laços familiares, acadêmicos, no trabalho ou amizade. É leviano presumir que apenas homens machistas podem ser abusadores com suas esposas ou namoradas. Qualquer relação, por mais vazia que seja, pode conter em si doses de agressão.

 Entende-se como relacionamento abusivo os convívios onde se tem ciúmes exagerado, grosseria demasiada e autoritarismo. Mas não, é possível sim ser abusivo com pequenas atitudes. É mais fácil ainda encontrar resquícios desse comportamento tirano em nós mesmos. Quando, por exemplo, um individuo chantageia seus pais para conseguir o que quer, ou um amigo utiliza um segredo contado contra o outro, tem-se perfeitos exemplos de violência psicológica, onde mesmo sem querer, podemos ferir nosso próximo.

 O que motiva isso é o egoísmo, e em uma sociedade que se sustenta no individualismo, não poderia ser diferente. O indivíduo encontra-se preso no seu próprio eu e não há preocupação em reformar a si mesmo ou desconstruir defeitos para melhorar suas relações. Bauman, em seu livro "Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos", apresenta a transformação do homem em mercadoria e com isso, a busca nos relacionamentos é pelo lucro, e não a felicidade alheia. Em sua produção, ele diz:

"Para o parceiro, você é a ação a ser vendida ou o prejuízo a ser eliminado - e ninguém consulta as ações antes de devolvê-las ao mercado, nem os prejuízos antes de cortá-los."

 A contemporaneidade fez os indivíduos tornarem-se obcecados por controle e a ideia de não possui-lo é frustrante. Por isso, ele apropria-se de pequenas manipulações para atingir seu objetivo. Seja uma pequena mentira, fofoca ou extorsão, essas atitudes caracterizam relações abusivas e é preciso abrir mão da hipocrisia e superficialidade ao falar sobre violência nos relacionamentos.

 Que homens machistas sejam expostos, que mulheres saiam de relacionamentos abusivos com esperança e ânimo para dias melhores. E se a pessoa abusiva for a mulher, que a mesma libertação aconteça. Mas, acima de tudo, que tenhamos a humildade de reconhecer nossas atitudes abusivas e aceitemos a proposta de melhorar como ser humano, para fazer do outro feliz. Relacionamentos saudáveis se constituem quando duas ou mais pessoas reconhecem o impacto de suas ações nos outros.

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