As empoderadas mulheres do sertanejo

10:23


"Deixa ele dar vexame, vai chorar, ficar doente, esse traste não merece a gente..."
 Seja em uma festa, balada ou barzinho, quando a batida sertaneja anuncia a vinda de uma dessas canções, o  público levanta os braços e canta como quem conhece o repertório inteiro. Quem sabe, desenterrando da mente lembranças pessoais. Não se pode negar que a mulher deixou de fazer papel de musa para se tornar protagonista de sua história, e no universo da música sertaneja não foi diferente. A luta pela igualdade de gênero trouxe a ocupação da mulher de diversos espaços e, convenhamos, melhorou a qualidade musical.

 O machismo predominante na cultura sertaneja não é desse século, e veio sendo construído desde a época de Tonico e Tinoco, onde eles citam em uma de suas músicas: "agora já me vinguei, é esse o fim de um amor, esta cabocla eu matei, é a minha história, doutor". Seja por influência do sistema patriarcal ou uma simples reafirmação da (frágil) masculinidade, as canções sertanejas costumavam girar em torno da figura do homem, mesmo quando cantadas por mulheres. Nos anos seguintes, o gênero ganhou sentido mais romântico e conquistou um público muito maior. Até os dias atuais, músicas como "Evidências" embalam histórias.

 O Sertanejo Universitário ganhou voz nas rádios e festas, com um ritmo mais dançante e letras mais descontraídas que falavam sobre festas, encontros casuais e um estilo de vida "desapegado". Mesmo com a simbologia de liberdade, mulheres continuaram sendo sujeitas à uma visão negativa, ainda que ouvissem e dançassem o gênero. Essas mesmas músicas celebravam a imagem do rapaz pegador e da menina vulgar, quando ambos são livres. Como nos trechos de "Tá Rodada", do cantor Loubet: "tá rodada e ainda paga de gatinha, você já perdeu a linha, não existe solução. Tá rodada, ta pisada e ainda vem se oferecer [...]"


 Essa, entre outras, expunham uma visão quase que demonizada da mulher, mas isso não durou muito tempo. Cantoras começaram a ter postura combativa e escrever respostas para algumas das canções machistas, como quando Naiara Azevedo cria uma resposta para a música "Sou Foda", sendo essa a produção que lhe deu a notoriedade de hoje.



 Na sequência, outras cantoras solos e duplas exclusivamente femininas criaram músicas baseadas nos desamores que viveram, tornando-se donas das próprias produções. Enquanto, antes disso, as letras masculinas celebravam seus romances e términos, elas contam as próprias histórias e reafirmam sua personalidade independente, também trabalhando a questão da união feminina, que antes era marcada por rivalidade. Agora, ao invés de subjugarem outras mulheres, elas reconhecem a desigualdade de gênero e se manifestam sobre isso. Pois como disseram Maiara e Maraísa: "Graças a Deus que existem as amigas, e eu já tô tão bem, que até ex duvida".



Nessas mesmas coletâneas, as autoras abrem seus corações para relembrar traições, foras e trapaças amorosas. Porém, ao contrário de demarcarem lamentações e sofrimento nas letras, denunciam os abusos e são certas da sua capacidade de se restituir e viver novas histórias. A cultura de submissão e silêncio foi substituída por uma geração que não se envergonha de ter sofrido decepção amorosa e aborda esse tema sem inseguranças.



 A mulher do sertanejo atual é a que é traída e dá a volta por cima, que bebe sem se prender a paradigmas, sofre por amor sem esconder seus sentimentos e expõe os relacionamentos sem preocupação sobre o que vão pensar, vive intensamente suas amizades, se ama e protege outras mulheres. Essa mulher não precisa se intitular feminista para ser um exemplo de empoderamento para as outras. Ela enfrenta todos os estereótipos de histérica e louca, e revoluciona positivamente a música brasileira. Vida longa ao sertanejo universitário feminino!


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