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Crônicas de uma Viajante: Desfile de Moda Inclusiva


 Essa viagem não aconteceu fora da minha cidade (Campo Grande - MS), mas foi uma aventura inédita, digna de ser contada. Durante essa estrada maluca chamada vida, somos marcados por encontros e oportunidades de fazer coisas diferentes, para mudar a nossa e a realidade da comunidade em que vivemos. Ao possuir uma deficiência física e crescer em uma meio onde as pessoas próximas a mim me encorajavam a ser quem eu quisesse e lutar pelos meus sonhos, decidi que um desses sonhos seria transformar o universo de mulheres que não tiveram as mesmas oportunidades que eu. Aos 17 anos entrei para a Associação de Mulheres com Deficiência de Campo Grande (AMDEF CG), um grupo de mulheres com diversas deficiências, mães de meninas com deficiência e colaboradoras que se unem em prol de trazer visibilidade, protagonismo e empoderamento para a causa. Alguns meses depois me tornei secretária da entidade e desde então, parte da minha vida é dedicada a esse trabalho.


 O desfile e concurso "Aqui tem Moda Inclusiva" foi uma iniciativa da AMDEF CG, junto do Shopping Bosque dos Ipês e curso de moda da Universidade UNIDERP. No evento, 11 modelos com diferentes idades e deficiências desfilaram vestidas de peças feitas por estudantes de moda, respeitando suas especificidades e dificuldades na hora de se vestir. A temática do desfile foi sobre a  pintora mexicana Frida Kahlo, símbolo de empoderamento feminino; as cores, cortes e estampas vinham com flores coloridas, brilhos e rendas.
 Com três meses de preparação, contato com os estudantes e provas de roupa, as peças foram construídas de acordo com a personalidade de cada modelo. A roupa apresentada por mim e meu grupo de estilistas foi um vestido estampado com decote nas costas, aplicações de flores e sobressaia preta-transparente. O comprimento da roupa e extravagância da calda foi muito comentado, chamando a atenção para a autoestima e autonomia da mulher com deficiência que pode - e deve - ser ousada, divertida e livre.


 A experiência foi diferente de tudo que já vivi. Minutos antes de entrar na passarela, meu coração disparava enquanto tentava segurar as lágrimas ao ver outras mulheres com deficiência desfilando. Ao chamarem meu nome e dar o primeiro passo, fui em direção ao flashes que me cegavam, enquanto ouvia as palmas de familiares, amigos e prestigiadores do evento. A passagem curta parecia durar uma eternidade. Deixei a timidez e o nervosismo nos bastidores para dar lugar a um sorriso confiante e postura impecável. As pessoas estavam ali para mudar seus estereótipos a respeito da mulher com deficiência e eu daria isso a elas. O calor de meu corpo se esvaia enquanto trocava energia com cada pessoa da plateia,  onde, pelo menos por um breve momento, abandonei o perfil de menina e abracei meu semblante de mulher. 


 Os aplausos, gritos e comentários lisonjeiros deram a confiança que eu precisava, a mocinha de 1,58m sentia-se gigante durante aqueles passos, parecendo caminhar para um futuro mais acessível em todos os sentidos. Ser modelo por uma noite foi uma experiência extraordinária, uma daquelas lembranças que contamos para nossos filhos, netos e conhecidos no bar, quando nos gabamos de nossas conquistas. Mas acima de tudo, foi a oportunidade de mostrar para o comércio de vestuário, pessoas com deficiência, mídia e comunidade local que a moda não deve ter padrão, que todas as mulheres podem ser bonitas, usar vestido curto, salto e andar por aí como uma top model. Se com isso eu ajudei uma pessoa sequer, estarei feliz.
 Seguem abaixo fotografias do desfile:







About Sarah Santos

Sarah Santos
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2 comentários:

  1. Além de ser uma ótima escritora é maravilhosa, empoderada é linda por fora e por dentro!!!

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