A pedofilia que mora ao lado

16:11


 "Vocês, feministas, veem problema em tudo!" - é comum ouvir acusações ao questionar ações da vida cotidiana sob uma ótima feminista, isso quando tais comentários não acompanham algum adjetivo como "louca" ou "problemática". Mas em um panorama onde o gênero feminino é  atacado sexualmente e moralmente o tempo todo, é preciso repensar as construções sociais para verificar onde há falhas. Não é novidade que a mulher é empurrada para um modelo estético que faz com que ela se sinta minimamente incluída no  status de mulher ideal, e um dos principais ingredientes da receita da perfeição é a juventude.

 Ao folhear o jornal diário e ler os classificados de acompanhantes, têm-se uma clara demonstração do quanto a jovialidade é valorizada por homens, visto que os termos "universitária" ou "novinha" ao lado de idades que variam de 18 a 20 anos são como palavras chaves para um anúncio de sucesso. Segundo a fundação francesa Scelles, 75% das profissionais do sexo possuem de 13 à 25 anos. Em parâmetros nacionais, os dados também são preocupantes: a UNICEF, em uma pesquisa de 2010, aponta o número de 250.000 à 300.000 crianças exploradas sexualmente no país, em um cenário de maior exploração feminina.



 A indústria pornográfica, que de acordo com a organização Treasures arrecada mais de R$100 bilhões por ano, também indica dados preocupantes em relação à exploração da sexualidade de crianças e jovens. Um levantamento da ONG Safernet, que luta contra crimes virtuais, mostra que a pornografia infantil é o crime virtual mais comum no Brasil, ocupando quase metade das páginas denunciadas na polícia federal.

 O site Porn MD - uma espécie de Google, mas focado em termos pornográficos - mostra um ranking de TAGs mais procuradas em cada país. A colocação brasileira aponta o termo "novinha" em terceira posição e "teen" na sexta, "16 year old" também está entre as palavras mais buscadas. O fetichismo juvenil se mostra mais evidente em ambientes privados, onde homens exploram sua sexualidade e meninas tornam-se objetos.



  A realidade de meninas, jovens e mulheres é impactada por esses dados alarmantes. Em uma sociedade onde os holofotes dos olhares masculinos viram-se em torno da juventude feminina, reza a lenda que "meninas crescem mais rápido" e adultas tendem a buscar uma aparência jovial ao invés de contemplar sua idade, para continuarem atraentes.

 Na mídia, encontra-se a exploração do estilo "Lolita" (livro de 1956, com duas versões cinematográficas) com mulheres infantilizadas, hipersexualizadas e aparentemente ingênuas, tidas como objetos secundários para seduzir homens, que seriam os protagonistas. Logo, é comum assistir filmes hollywoodianos com a imagem da garota do colegial, ou clipes musicais explorando mulheres adultas em universos de contos de fadas.



 A falha da sociedade está em olhar casos de abuso sexual de menores em uma ótica de distanciamento, atuando como se fossem episódios isolados. A pedofilia é um problema atual e têm a ver com toda a população, por existir um sistema que reforce isso. A inquietação que só surge em circunstâncias de estupro também deve ser demonstrada com meninas que são discretamente assediadas por familiares, jovens embebedadas em festas universitárias e mulheres que usam de infantilização para tornarem-se atraentes.

 Sim, um livro que erotiza a imagem de meninas de 16 anos ou filmes que mostrem garotas na escola com sua sexualidade aflorada influenciam diretamente no sofrimento de crianças que têm essa fase da vida interrompida pela violência sexual. É preciso parar com esse ciclo de consumir produtos da indústria cultural que façam apologia a pedofilia, culpabilizar a vítima e admitir que a fetichização infantil existe. Proteger mulheres e meninas também é desconstruir padrões que agridam sua integridade.

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