Crônicas de uma viajante: Assentamento Canaã - A Terra Prometida

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 As viagens para mim sempre tiveram uma importância muito maior que apenas "espairecer", ou tirar um período de férias. Uma viagem pode ser vista como oportunidade para sair de seu cotidiano, de sua zona de conforto para conhecer o outro, habitar um novo espaço. E com isso, descobri que para conhecer outra cultura não preciso necessariamente visitar um destino que me faça gastar com pacotes de viagens e hotéis que ofereçam conforto a um alto preço. O assentamento Canaã me ensinou muito sobre turismo comunitário e a natureza vivida em sua plenitude.


 O assentamento fica na cidade de Bodoquena - MS. São seis horas de viagem da capital sulmatogrossense até o destino, que localiza-se dentro da serra. Na estrada a paisagem é de morros, animais silvestres, bovinos e muito verde.  Após entrar na serra não se vê mais sinal de wi-fi, e ao andar um pouco mais, não há energia elétrica. Imaginei que esse seria o maior desconforto durante a viagem, passar dias sem atualizar o Facebook, Instagram ou conversar com meus amigos. 
 O Refúgio Canaã é um assentamento formado na década de 60 e carregado de muitas histórias. Seu povo resistiu bravamente e até hoje defende suas terras com fervor, o que interfere no turismo local, onde não é vista a participação de agências ou pacotes de viagens  tradicionais. O nome "Canaã", foi dado por estimar-se que ali seria uma terra prometida, com extensos rios, terras férteis e muita beleza natural.


 Ficamos hospedados na Reserva Particular do Patrimônio Natural Cara da Onça, uma adorável casinha no meio do morro com a vista mais bonita de toda a serra da cachoeira Boca da Onça. Por ser uma área completamente preservada, borboletas e outros bichinhos nos visitavam com frequência, o que me fez dormir dentro de uma barraca, evitando assim picadas e outros imprevistos. 
 A energia elétrica também influencia na confecção dos alimentos, o que me fez trocar refrigerantes e a eventual cervejinha por vinhos e sucos, e a alimentação potencialmente industrializada por frutas e legumes. O que também ocorria com a higiene, que era feita na cachoeira, uma oportunidade para refletir sobre todas as nossas necessidades criadas no cotidiano, completamente imaginárias.

 Os rios cristalinos devido ao calcário presente no local é a melhor parte da viagem, sem dúvidas. As quedas d'gua fazem um barulho irresistível, uma canção que soa como convite para um mergulho. As águas são recheadas por pedras e ao imergir, devemos confiar em nossos passos como uma garota que confia em seu amado para não recuar. De correnteza fraca, as ondinhas frias te conquistam assim que se deixa levar por elas.
 O passeio também é acompanhado por longas caminhadas recheadas de subidas e descidas, o que às vezes pedem uma lanterna e ocasionam um suspense gostoso das pisadas deixadas para trás. Saíamos cedo para voltar antes do anoitecer, onde assistíamos a performance encantadora da lua.


 Essa viagem me ensinou muito sobre a relatividade do tempo. Ali, eu e minha câmera, longe das demais tecnologias, o tempo parecia escorregar lentamente e as coisas a minha volta eram sentidas com muito mais intensidade que em dias corriqueiros da urbanidade. Eu, mocinha da cidade, fiquei impressionada com a boa energia que vinham das águas, árvores e da terra quase branca. 
 Deixei a cidade serrana com o coração apertado e não me sentindo mais tão turista assim. Então, descobri que ao contrário do turismo de massa, o turismo comunitário lhe integra ao local visitado como se estivesse em sua própria casa. Queria eu ser merecedora de uma casa como a Terra Prometida.


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