Crônicas de uma viajante: a travessia do Rio Paraguai

07:50


 O sol anunciava um dia quente que estava por vir, mas essa mesma luz nos avisou quão lindo ele seria. Nos preparamos para uma viagem de seis horas a barco com comprimidos e refeições leves para evitar o enjoo, enquanto contávamos cada minuto para chegar em nosso destino final: Forte Coimbra, distrito de Corumbá. Uma cidade pequena, mas carregada de histórias. Com a finalidade de realizar um trabalho acadêmico na companhia do Exército Brasileiro, nos passaram recomendações para aproveitar cada pequeno momento e extrair materiais que poderiam render reportagens depois. Portanto, eu e meus colegas estudantes estávamos atentos a tudo: cheiros, sabores, texturas, barulhos e pessoas. Na faculdade, passamos anos conhecendo os conceitos de objetividade e imparcialidade… Mas o jornalista que nunca viveu intensamente uma pauta, que atire a primeira pedra. No jornalismo de imersão, o profissional mergulha no ambiente, se coloca dentro do fato e descreve as sensações e sentimentos. Parece contraditório diante de toda a correria de reportagens e informações passadas com rapidez, mas um bom texto dá ao leitor a sensação de que estava no local. Durante as primeiras horas da travessia entrevistamos pessoas do exército. Queríamos saber mais sobre o cotidiano de quem morava em Forte Coimbra e estava dentro do barco, mas não tivemos coragem de interromper o descanso dessas pessoas. Era muito claro o fato de sermos turistas, tirando foto de tudo e eufóricos por estarmos ali. Logo, o cenário de Corumbá foi substituído por uma paisagem de rio, matas e céu. O Rio Paraguai é extenso, as árvores pintadas em um verde inconfundível, refletidas no rio escuro e iluminados pelo céu azulado. A combinação perfeita, um desenho cuidadosamente produzido pelo Criador. O ruído do barco intercalava-se com os sons da natureza, em um dueto agradável. Conforme a noite caía, nos distanciamos da cidade de Corumbá. O horizonte que antes nos rodeava tornou-se um breu guiado pelo farol curioso tentando chegar em seu destino.



 Subimos até o último andar para observar o rio de cima e chegar mais perto das estrelas. O céu estrelado do pantanal, sem dúvidas, foi um dos melhores presentes que meus olhos já receberam. Buscamos apoio na sacada para sentir o vento que acariciava nossa pele e cabelos, enquanto cantávamos algumas canções para assistir o tempo passar. “É uma noite longa pra uma vida curta, mas já não me importa, basta poder te ajudar…”, logo, uma viagem corriqueira tornou-se ocasião especial. Era impossível não se comover. Sentamos no chão do barco, nos deixando embalar pelas estrelas e fizemos confissões uns aos outros. Ali, meus colegas de faculdade mostraram-se companheiros de jornada, e tiramos as máscaras do cotidiano por um breve momento. Ansiosos pelo que o Forte Coimbra nos apresentaria, mas com muito pesar, aterrizamos na pequena cidade. Agradeci às estrelas por me proporcionarem aquele momento e mais tarde, antes de dormir, à Deus por permitir que eu o tivesse. Com o coração acalentado, descobri que não precisamos esperar chegar no destino para curtir a viagem.

You Might Also Like

0 comentários